sábado, 27 de setembro de 2014

Caso Helicoca: as ligações de Aécio Neves com Zezé Perrella


Postado em 22 jul 2014 por :  (*)
Zezé Perrella e Aécio
Zezé Perrella e Aécio

Ambos mineiros, Aécio Neves e Zezé Perrella torcem pelo mesmo time de futebol, o Cruzeiro, do qual Perrella foi presidente, e jogam juntos no primeiro escalão da política do estado. Nas eleições estaduais deste ano, o PDT de Perrella, que apoia o PT no plano nacional, fechou com o PSDB em Minas.
A maior demonstração da força de Perrella no coração político de Aécio se deu quatro anos atrás, na disputa para o Senado. Itamar Franco havia trocado o PMDB pelo PPS e sido indicado para disputar uma das duas vagas ao Senado – a outro era de Aécio.
Com 80 anos de idade, Itamar queria José Fernando Aparecido, hoje no PV, como seu primeiro suplente. José Fernando é filho de um antigo aliado de Itamar, o ex-governador do Distrito Federal José Aparecido. Mas Aécio impôs o nome de Perrella.
“Todo mundo nos bastidores achava que Aécio queimaria o Itamar, permitindo votos no candidato do PT ao Senado, Fernando Pimentel, como parte de uma estratégia para agradar aos eleitores petistas no Estado, que deram a vitória a Lula em 2002 e 2006 e a Dilma em 2010”, diz o deputado estadual Sávio Souza Cruz, aliado de Itamar, homem forte de seu governo entre 1999 e 2003.
“Mas o Aécio trabalhou muito pelo Itamar. Hoje se sabe que ele pedia votos para o ex-presidente, mas o que queria mesmo é colocar Perrella no Senado”, acrescenta.
Pouco mais de um ano depois de eleito, aos 81 anos, Itamar faleceu de leucemia aguda, e Perrella assumiu uma cadeira no Senado, herdando sete anos de mandato.
A união entre o PDT de Perrella e o PSDB de Aécio é um capítulo de uma aliança que não se limita à política.
A promotoria de Defesa do Patrimônio Público de Minas Gerais encontrou as digitais de Perrella em diversas investigações que tem realizado sobre o governo de Aécio.
A família Perrella aparece nos inquéritos abertos para investigar a concessão dos restaurantes da Cidade Administrativa, a maior obra de Aécio no estado, a venda de refeições para os presos, a fraude fiscal na venda de carnes e o convênio para a produção de alimentos para o programa Minas Sem Fome.
Tamanha proximidade não recebe destaque na cobertura da imprensa mineira, especialmente no maior jornal local, “O Estado de Minas”, em que notícias consideradas negativas ao ex-governador já resultaram em demissões.
O jornal concorrente, “Hoje em Dia”, chegou a publicar reportagens que deram origem à investigação do Ministério Público. Mas a propriedade do jornal trocou de mãos, e o veículo agora menospreza até os desdobramentos dos furos de outros tempos, como aconteceu no caso da produção de alimentos para o Minas Sem Fome.
As críticas se limitam à internet, mas, mesmo aí, a resposta é pesada, como aconteceu no caso do jornalista Marco Aurélio Carone, que foi preso em janeiro e seu site, “Novo Jornal”, foi retirado do ar por decisão da Justiça.
Filho de um ex-prefeito de Belo Horizonte, Carone é acusado de publicar informações falsas com o objetivo de buscar vantagens indevidas. Sua verborragia é antiga, mas ele foi para trás das grades depois que começou a divulgar informações que relacionam Aécio à cocaína e ao helicóptero dos Perrellas, o Helicoca.
No despacho que o mandou para a cadeia, a juíza Maria Isabel Fleck justifica sua decisão como medida para evitar que ele continue “a utilizar o seu jornal virtual para lançar informações inverídicas”.
Na prisão, Carone teve um enfarte e, internado, recebeu a visita de deputados da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa. Um dos deputados gravou um depoimento de Carone, em que ele diz que foi preso alguns dias depois de obter a informação de que a filha de Aécio viajou no Helicoca.
Ouvido pelo Ministério Público em Minas, o ex-piloto de Perrella, Rogério Almeida Antunes, não citou o nome da filha de Aécio entre os passageiros do helicóptero, nos tempos em que a aeronave levava celebridades com combustível pago com dinheiro da Assembleia Legislativa.
Carone também divulgou em seu site a notícia de que Aécio teria sido internado, com overdose de cocaína, no hospital Mater Dei, de Belo Horizonte.
Eu conversei com funcionários do hospital e ouvi que Aécio já esteve, de fato, internado lá, e soube que, no último programa de treinamento para funcionários da segurança, o ex-governador foi citado como um paciente do hospital.
Procurei a direção do hospital Mater Dei, à qual encaminhei quatro perguntas:
1) É fato que o senador Aécio Neves esteve internado no Mater Dei?
2) Quando ocorreu a internação e foi em decorrência de que problema de saúde?
3) O hospital já mencionou em programa de treinamento que tem o senador Aécio entre seus pacientes. Por que é feita a menção?
4) É fato que o hospital mantém uma área permanentemente reservada para o senador?
A resposta do hospital veio dois dias depois:
“O senador Aécio Neves esteve internado uma única vez no Hospital Mater Dei, em  2011, para tratamento de fraturas sofridas em episódio amplamente coberto e divulgado pela imprensa. O atendimento foi prestado pelos ortopedistas Rodrigo Lasmar e Marco Antonio de Castro Veado. O  Hospital não faz este tipo de reserva para pacientes e rechaça com veemência as falsas e caluniosas insinuações constantes nas perguntas”.
Para o deputado Rogério Correia, do PT, uma das vozes de oposição em Minas, essa boataria em torno de Aécio não deve ser usada como arma política, em nenhuma hipótese, mas é impossível, segundo ele, retratar o ambiente político em Minas sem citar a cocaína como um problema real para Aécio Neves.
“Acho que essa falação começou porque Aécio era visto em BH como um playboy. Em 1992, ele disputou e ficou em terceiro lugar nas eleições para prefeito. Não era levado muito a sério. A situação mudou depois que se tornou presidente da Câmara dos Deputados, com apoio do Fernando Henrique Cardoso”, analisa.
Em Minas, não faltam teorias sobre o que teria levado Aécio a deixar de ser o neto playboy de Tancredo e se tornar um político competitivo.
Mas, num ponto, todos concordam: por trás do homem que deixou de ser o Aecinho (Aécim na pronúncia mineira) para se tornar o governador, está o braço forte de uma mulher.
Andrea Neves
Andrea Neves
É Andréa Neves, irmã de Aécio e em quem o avô Tancredo via talento político, mas de quem guardava uma enorme distância ideológica.
Nos tempos em que cursava jornalismo na PUC do Rio, Andrea era vista como simpatizante do PT e frequentava as rodas da esquerda. No episódio em que explodiram a bomba no Riocentro, ela estava no show em comemoração ao Dia do Trabalhador.
Nas voltas que o mundo dá, 22 anos depois, no governo do irmão em Minas Gerais, Andrea respondeu formalmente pela assistência social, mas cuidava de outros assuntos, como o relacionamento com a imprensa.
O ex-diretor da Rede Globo em Minas Gerais, Marco Nascimento, conta que foi demitido depois que a emissora mostrou em rede nacional que o crack era consumido livremente numa área do centro de Belo Horizonte, numa reportagem interpretada como falha na política de combate às drogas no governo de Aécio Neves.
Depois da reportagem, segundo Marco, Andrea foi ao Rio de Janeiro se queixar ao diretor de jornalismo. Voltou com a cabeça de Marco Nascimento na bagagem.
Andréa também assumiu a propriedade da rádio Arco Íris, de Minas Gerais, depois que Aécio se elegeu governador, para evitar uma situação de ilegalidade.
Mas o indício de que se tratou de uma mudança de fachada veio à tona depois que, parado numa blitz policial no Rio de Janeiro, Aécio Neves se recusou a fazer o teste de bafômetro e teve a carteira de habilitação apreendida.
É que, como resultado da blitz, a Polícia do Rio de Janeiro mandou ao Detran de Minas Gerais a cobrança de uma multa.
A multa vazou na internet, com a informação de que o carro de Aécio estava em nome da rádio Arco Íris.
A rádio tinha um patrimônio declarado modesto, de apenas 200 mil reais, mas contava com uma frota de doze carros de luxo.
A oposição e o Ministério Público tentaram investigar o uso da rádio como fachada para bens pessoais de Aécio, mas os inquéritos não prosperaram.
O argumento dos deputados é que, sendo a rádio propriedade de Aécio, ela não poderia ter recebido verbas públicas, na forma de anúncio publicitário, durante seu governo.
O então procurador-geral da República, Roberto Gurgel, a quem cabia a investigação de quem tem foro privilegiado, como é o caso de senador, arquivou a denúncia feita por deputados de oposição.
Gurgel tomou a decisão pouco antes de deixar o cargo de procurador-geral, em que se destacou pelo rigor na denúncia contra os petistas acusados de envolvimento no mensalão.
Paralelamente, o promotor João Medeiros, da Defesa do Patrimônio Público de Minas, abriu inquérito civil. Mas foi barrado pelo procurador-geral de Justiça do Estado, Alceu José Torres Marques, sob o argumento de que a prerrogativa para investigar o ex-governador era dele, não do promotor.
De nada adiantou o argumento de que o promotor queria investigar o repasse de verbas. Prevaleceu a tese de Alceu e, em suas mãos, a denúncia foi para o arquivo.
Depois de deixar a Procuradoria, Alceu foi nomeado secretário estadual do Meio Ambiente, cargo que ocupa atualmente no governo mineiro que Aécio ajudou a eleger.
No último carnaval, a marchinha eleita pelos ouvintes num concurso promovido pela rádio Inconfidência é uma bem humorada crônica sobre o Helicoca.
Na letra de Alfredo Jackson, Joilson Cachaça e Thiago Dibeto, a marcinha fala de um baile onde deixaram o Pó Royal cair no chão, e “o pó rela no pé” e o “pé rela no pó.”
Na canção, os sambistas perguntam: “Esse pó é de quem estou pensando?” Em seguida, respondem: “Ah, é sim! “Ah, é sim!”. Mas concluem: “Você sabem, eu também sei de cor. Mas não conta que vai ser melhor.”
Para o Carnaval de 2015, tem gente apostando suas fichas num outro tema incômodo para Aécio Neves: o aeroporto que o estado construiu no município de Cláudio, onde o ex-governador tem uma fazenda.
O aeroporto foi construído na fazenda do tio-avô dele, com dinheiro público, durante seu governo. Mas só os amigos podem aterrissar.
(*) Sobre o Autor
Jornalista, com passagem pela Veja, Jornal Nacional, entre outros. joaquim.gil@ig.com.br

a antiga imprensa, enfim, assume partido


Veja que este artigo foi escrito a quatro anos atrás, e nada mudou, aliás, a situação piorou. A imprensa esta cada vez mais partidarizada e raivosa, destilando todo tipo de ódio e veneno para seu leitores. Alguns ainda replicam pela redes sociais, DESinformando e espalhando mais ódio. (nota do autor deste blog\)

Publicado por Jorge Furtado: a antiga imprensa, enfim, assume partido - Blog de Jorge Furtado/Casa de Cinema de Porto Alegre ( Blog da Casa do Cinema- postado em: 02/04/2010 - 

Quem estava prestando atenção já percebeu faz tempo: a antiga imprensa brasileira virou um partido político, incorporando as sessões paulistas do PSDB (Serra) e do PMDB (Quércia),
e o DEM (ex-PFL, ex-Arena).

A boa novidade é que finalmente eles admitiram ser o que são, através das palavras sinceras de Maria Judith Brito, presidente da Associação Nacional dos Jornais e executiva do jornal Folha de S. Paulo, em declaração ao jornal O Globo: “Obviamente, esses meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada.

A presidente da Associação Nacional dos Jornais constata, como ela mesma assinala, o óbvio:seus associados “estão fazendo de fato a posição oposicionista (sic) deste país”. Por que agem assim? Porque “a oposição está profundamente fragilizada”.

A presidente da associação/partido não esclarece porque a oposição “deste país” estaria “profundamente fragilizada”, apesar de ter, como ela mesma reconhece, o irrestrito apoio dos seus associados (os jornais).

A presidente da associação/partido não questiona a moralidade de seus filiados assumirem a “posição oposicionista deste país” enquanto, aos seus leitores, alegam praticar jornalismo.

Também não questiona o fato de serem a oposição ao governo “deste país” mas não aos governos do seu estado (São Paulo).

Propriedades privadas, gozando de muitas isenções de impostos para que possam melhor prestar um serviço público fundamental, o de informar a sociedade com a liberdade e o equilíbrio que o bom jornalismo exige, os jornais proclamam-se um partido, isto é, uma
“organização social que se fundamenta numa concepção política ou em interesses políticos e sociais comuns e que se propõe alcançar o poder”.

O partido da imprensa se propõe a alcançar o poder com o seu candidato, José Serra. Trata-se, na verdade, de uma retomada: Serra, FHC e seu partido, a imprensa, estiveram no poderpor oito anos. Deixaram o governo com desemprego, juros, dívida pública, inflação e carga tributária em alta, crescimento econômico pífio e índices muito baixos de aprovação popular.

No governo do partido da imprensa, a criminosa desigualdade social brasileira permaneceu inalterada e os índices de criminalidade (homicídios) tiveram forte crescimento.

O partido da imprensa assumiu a “posição oposicionista” a um governo que hoje conta com enorme aprovação popular. A comparação de desempenho entre os governos do Partido dos
Trabalhadores (Lula, Dilma) e do partido da imprensa (FHC, Serra), é extraordinariamente favorável ao primeiro: não há um único índice social ou econômico em que o governo Lula
(Dilma) não seja muito superior ao governo FHC (Serra), a lista desta comparação chega a ser enfadonha.

Serra é, portanto, o candidato do partido da imprensa, que reúne os interesses da direita brasileira e faz oposição ao governo Lula. Dilma é a candidata da situação, da esquerda, representando vários partidos, defendendo a continuidade do governo Lula.

Agora que tudo ficou bem claro, você pode continuar (ou não) lendo seu jornal, sabendo que ele trabalha explicitamente a favor de uma candidatura e de um partido que, como todo
partido, almeja o poder.

X

Annita Dunn, diretora de Comunicações da Casa Branca, à rede de televisão CNN e aos repórteres do The New York Times:

"A rede Fox News opera, praticamente, ou como o setor de pesquisas ou como o setor de comunicações do Partido Republicano" (...) 

"não precisamos fingir que [a Fox] seria empresa comercial de comunicações do mesmo tipo que a CNN. A rede Fox está em guerra contra Barack Obama e a Casa Branca, [e] não precisamos fingir que o modo como essa organização trabalha seria o modo que dá legitimidade ao trabalho jornalístico. Quando o presidente [Barack Obama] fala à Fox, já sabe que não falará à imprensa, propriamente dita. O presidente já sabe que estará como num debate com o partido da oposição."

SOBRE ESSE TEMA, LER TAMBÉM:

A Globo e a ditadura, segundo Walter Clark
A decadência da imprensa brasileira


A decadência da imprensa brasileira

( MATÉRIA PUBLICADA HA QUATRO ANOS, NAS  ELEIÇÕES  DE 2010. VEJA QUE NADA MUDOU. )

A imprensa brasileira teve momentos da historia do país em que desempenhou papel determinante. Basta recordar o peso que teve nas mobilizações de desestabilização que levaram ao golpe de 1964, em que jornais como O Estado de Sao Paulo, a Tribuna da Imprensa, o Correio da Manhã, entre outros, tiveram o papel, pela primeira vez, de condutores ideológicos e políticos das forcas opositoras.

Setores da imprensa tiveram também um papel positivo, na campanha das diretas, quando outros tentavam esconder a amplitude do movimento e seu verdadeiro significado.

Assistimos hoje à decadência generalizada dessa mesma imprensa, que martela, cotidianamente, praticamente de forma total e monótona, ataques contra o governo Lula, logrando, no entanto, que apenas 5% da população rejeite o governo, enquanto mais de 80% o apoie. Nunca a imprensa brasileira esteve tão distante e contraposta à opinião do povo brasileiro. Daí seu isolamento e decadência, pelo menos sob sua forma atual.

As organizações Globo, que só possuíam um jornal, sem nenhuma importância, no Rio, antes do golpe, tiveram na ditadura sua grande alavanca, mas, ao mesmo tempo, o golpe insuperável de falta de credibilidade. Ficaram com a marca da ditadura, por mais que tentassem se reciclar, importando colunistas, usando a audiência da televisão para tentar conseguir mais público.

Atualmente dispõe de um trio que atenta contra qualquer credibilidade, que dá a tônica do jornal: Merval Pereira, Ali Kamel e Miriam Leitão. Todos os três se caracterizam por serem as vozes do dono, por sua postura propagandística, sem nenhum interesse no que dizem, nem brilho ou criatividade no que escrevem. São funcionários burocráticos da empresa, que exercem, da maneira que conseguem, seu burocrático papel de opositores, buscando catar supostas fraquezas do governo, que é seu único objetivo.

Nenhum tipo de análise, nenhuma nuance, nenhuma ideia. Para um jornal que precisaria desesperadamente de credibilidade, eles são um tiro no pé, uma confirmação da falta de credibilidade do jornal. O resto do jornal – das manchetes de primeira página às colunas de notícias – padece desse freio da rígida linha editorial, fazendo um jornal sem graça, sem interesse, sem repercussão.

No Rio de Janeiro, o conjunto dos órgãos da empresa, mesmo atuando fortemente a favor de algum candidato, perdem sempre. Lula ganhou nas duas últimas eleições no Rio; os Garotinhos, Sergio Cabral, Paes, mesmo Cesar Maia, se elegeram sem o apoio do jornal, que os atacava. Hoje, contra a vontade majoritária da grande maioria dos brasileiros, ficam de novo, acintosamente, na contramão da opinião do povo e do país, incluído claramente o povo do Rio de Janeiro, que sabe separar programas de diversão que lhe gosta ver, das inverdades que diz o jornal e os noticiários de rádio e televisão da Globo.

Diminuem sua tiragem, perdem público abertamente para a internet, para os jornais gratuitos, para os jornais populares vendidos. Melancolicamente, se arrasta o jornal, na fúria antilulista, sem repercussão política alguma.

O Estadão sempre foi o jornal conservador por excelência, com certa discrição, boa cobertura internacional, posições claramente direitistas. Conforme foi perdendo público para a FSP, que aparecia mais atraente para os jovens, mais ligada à oposição à ditadura, tratou de rejuvenescer. Como jornal mais organicamente ligado às entidades empresariais, tem uma avaliação mais equilibrada da política econômica, valorizando seus avanços, no marco das críticas tradicionais do liberalismo dos “gastos excessivos do Estado”.

Além do papel do Estado na economia, suas maiores preocupações e críticas ao governo são na política internacional. Sua predileção, em tudo e por tudo, com os EUA, fica ferida com as alianças com os países do Sul do mundo e com os da América Latina em particular. A política externa soberana do Brasil os incomoda profundamente, transformando-se num dos temas mais usuais e violentos dos editorais.

O outro são os movimentos sociais, em particular o MST, que causa ojeriza ao Estadão, pela defesa intransigente do direito à propriedade privada, pilar do sistema capitalista. (O jornal foi praticamente o órgão oficial das passeatas de preparação do golpe de 64, na defesa da “liberdade, da família e da propriedade”, valores aos quais continua fiel.) A liberdade, que inclui centralmente a de “imprensa” (privada, diga-se), protagonizada pela SIP – Sociedade Interamericana de Prensa -, órgão da Guerra Fria, cenário a que o jornal, rançoso, ainda se sente apegado. Os editoriais, sempre, e atualmente Dora Kramer, são os momentos mais patéticos do jornal, saudoso da Guerra Fria.

A FSP é o jornal que mais teve oscilações de imagem. Era um jornal sem nenhum peso até o golpe e mesmo durante boa parte da ditadura militar. O Estadão era o grande jornal de São Paulo. A FSP apoiou ativamente a preparação do golpe militar, sua realização e a instauração da ditadura, cumpriu tudo o que a ditadura determinava, com noticiários que escondiam os sequestros, desaparecimentos, execuções, publicando as versões oficiais, emprestando carros da empresa para a Oban.

Foi ao longo dos anos 80, quando levou Claudio Abramo do Estadão, que a FSP, pela primeira vez, ganhou prestígio, buscando espaço próprio na oposição liberal à ditadura. Pretendeu ser o órgão da “sociedade civil” contra o “Estado autoritário”, conforme a ideologia hegemônica na oposição, advinda da teoria do autoritarismo de FHC. (A FSP tirava, todo ano, uma foto no teto do seu prédio na Barão de Limeira, com os que ela consderava os representantes da “sociedade civil”, de empresários a líderes sindicais, como que para expressar fisicamente esse vínculo organizado com os setores que se opunham, em graus distintos, à ditadura.)

Consolidou essa imagem emprestando suas páginas para uma certo pluralismo, com um cronista semanal – Florestan Fernandes, Marilena Chaui, entre os mais conhecidos – do PT, e distintos políticos, intelectuais e líderes sociais escrevendo na sua página de opinião.

Desde a eleição de FHC, entrou em decadência, perdendo totalmente a credibilidade que o diferenciava. Colunistas com vínculos pessoais com os tucanos, como Clovis Rossi, Eliane Catanhede, outros, decadentes, como Jânio de Freitas, se arrastam melancolicamente na decadência geral do jornal, o que mais despencou na tiragem e o que mais se transformou nas duas últimas décadas. O filho do Frias pai conduz o jornal pelo abismo da intranscendência e do rancor, se parecendo cada vez mais com a Tribuna da Imprensa da época de Carlos Lacerda.

A Veja se assume, grotescamente, como o Diário Oficial da extrema direita, com paquidermes como colunistas, sensacionalismo de capa, projetando-se como má espécie de bushismo brasileiro. Com dificuldade para conciliar sua imagem de revista de generalidades com esse papel de brucutu da imprensa nacional, foi perdendo aceleradamente tiragem, o que aumenta a crise financeira que levou a empresa a pendurar-se em capitais externos.

Poderia ser menos afetada pela crise generalizada da imprensa, por ser uma revista semanal. Mas a brutalidade da sua orientação política a fez incorporar-se de cheio nessa queda. Terá papel ainda mais truculento na campanha eleitoral, jogando tudo para tentar barra a vitória do governo, esperando-se os golpes mais sujos da campanha da empresa dos Civita.

No conjunto, o cenário da imprensa brasileira – com a única exceção da Carta Capital, entre as publicações diárias e semanais – é deprimente e decadente. Uma vitória de Dilma – que os apavora, seria ficar mais quatro ou oito anos nessa posição de dirigentes opositores -, trará dilemas difíceis para essas empresas. É possível que uma ou outra busque reciclar-se para adaptar-se a novos tempos, em que inclusive tem que contar com o fim de toda uma geração de políticos estreitamente associados a ela, como FHC, Serra, Jereissatti, etc. Isso, associado a uma intensificação da crise econômica das empresas, deve colocar dilemas cruciais para órgãos que assumiram atitudes suicidas, contra a vontade expressa da maioria do povo brasileiro e pagam preço caro por isso.

SOBRE ESSE TEMA TAMBÉM LER

A Globo e uma ditadura, segundo Walter Clark

A Imprensa Antiga, enfim, assumir partido

fonte: Carta Maior - 02/04/2010 - Por Emir Sader Por


Atalho do Facebook JDANIEL